domingo, 30 de setembro de 2007

A confissão
(por Elano Ribeiro)

Era meio dia em ponto quando eu entrei no cinema lá do centro da cidade, aquele com a frente pintada de verde, o único que restou, porque os outros o senhor sabe né? Viraram supermercados ou igrejas. Eu precisava de um lugar onde eu pudesse ficar sozinho, onde não houvesse a mínima chance de me encontrar com qualquer pessoa conhecida. Eu tinha que botar a cabeça em ordem, decidir o que fazer depois daquela noite de discussão e lágrimas. A sala estava vazia e o filme eu nem sei dizer pro senhor qual era. Durante todo o tempo que fiquei lá dentro, estive de olhos fechados, encolhido na cadeira como uma criança que acabou de fazer alguma coisa muito errada. E o pior doutor é que eu vinha fazendo mesmo né? Mas eu juro pro senhor que eu lutei com todas as minhas forças pra me livrar da tentação, até promessa eu fiz doutor. Mas doutor, o senhor sabe como é né? A carne é fraca, e aquela vadia sabia me provocar direitinho. Aposto com o senhor que ela deve ter feito algum trabalho. Desculpa, eu sei que o senhor não vai apostar nada né? O fato doutor, é que eu há muito tempo vinha com vontade de juntar minhas coisas e ir embora, só não fiz isso por causa das crianças. O senhor tem filhos doutor? Ah, dois meninos? Então o senhor sabe que não dá pra deixar os filhos assim de uma hora pra outra né? Eu também já havia pensado em contar toda a verdade pra Clarice, mas nunca tive coragem. Tinha medo que ela me deixasse e levasse as crianças com ela. Ela não merecia ter esse fim, a pobrezinha. Eu é que sou o canalha da história e, no entanto, estou aqui, e ela, a doce Clarice, não mais. Sabe doutor, Clarice era um exemplo de mulher, de mãe, de dona de casa. Mulher prendada, dessas que a gente não vê mais hoje em dia. Clarice fazia questão de acordar antes de mim e preparar meu café da manhã. Fazia ovos mexidos como ninguém. Botava as crianças pra escola e só saía de casa sozinha pra ir à feira. Quando eu chegava em casa à noite, depois do trabalho, lá estava ela com uma bacia de água quente, e humildemente, como se eu fosse o seu senhor, lavava e massageava meus pés. Desculpe-me pelas lágrimas doutor, mas o senhor entende né? Sabe doutor, eu acho que se fosse com outra vagabunda qualquer, Clarice até me perdoaria, mas com a Ritinha, nossa afilhada, foi muita humilhação pra ela doutor. Quando nós batizamos a Ritinha, ela só tinha dois anos de idade, era uma criança inocente, bem diferente dessa vadia de hoje, que destruiu minha vida e me tirou Clarice pra todo o sempre. Nessa época do batizado, Clarice e eu estávamos casados há pouco tempo, éramos jovens bonitos e apaixonados. Mas o tempo passou doutor, nossa pele já não tinha o mesmo brilho, o corpo de Clarice já não era aquela formosura toda de outros tempos. Mas eu ainda amava a minha Clarice. Ah doutor, e como eu amava aquela mulher. O senhor acredita que eu a amava né? Só que aquela criança inocente que um dia nós batizamos, cresceu e se tornou uma perdição de tão bonita, pele rosada e lisinha, cochas grossas, seios pontudos. Ah, meu Deus, porque me deixou cair nas artimanhas do maligno. Aquela sem vergonha começou a freqüentar nossa casa, e não sei por que diabos ela foi se aproximar justo de mim, um homem casado, padrinho dela, e ainda por cima vinte anos mais velho. Ritinha me provocava, aparecia sempre com umas blusinhas que deixavam o umbigo de fora e com saias muito acima dos joelhos. Eu resisti por muito tempo doutor, mas teve um dia que eu não agüentei. E foi nesse maldito dia que minha vida começou a acabar. Durante três anos eu traí Clarice com aquela vadia. Perdão doutor, estou xingando muito né? Vou tentar me controlar. Eu imaginava que ninguém soubesse dos nossos encontros furtivos, mas ontem, antes de eu chegar do trabalho, alguma desalmada colocou uma carta anônima por debaixo da porta. Digo desalmada, porque isso só pode ser coisa de mulher né? Ah doutor, nossa noite foi um inferno. Clarice me chamava dos piores nomes, e a única coisa que eu podia fazer era pedir perdão. Eu jurei pra ela que nunca mais iria olhar pra cara da Ritinha. Mas já era tarde demais pra consertar as coisas doutor, Clarice estava se sentindo a última das mulheres. As crianças não paravam de chorar, por isso eu achei melhor passar a noite fora. Quando eu saí do cinema hoje à tarde, pensei que as coisas lá em casa já pudessem estar um pouco mais calmas. Mas que nada doutor, pra Clarice, o que eu fiz não tinha perdão, não tinha mais volta. Eu a encontrei sozinha em casa, sentada na beirada da cama. Ela já tinha tudo planejado doutor, tanto que ligou pra irmã e pediu que ela fosse lá em casa buscar as crianças. Clarice estava com a mesma roupa da noite anterior, e pelo vermelho dos seus olhos, havia chorado convulsivamente. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Clarice foi até a gaveta da cozinha, pegou a maior faca que tinha lá e partiu na minha direção. Eu fiquei parado doutor, esperando e torcendo pra que ela me apunhalasse o peito, pra que ela rasgasse minha carne de pecador, de traidor. Mas quando Clarice se jogou em cima de mim, ela já havia virado a lâmina da faca para si. Meu corpo serviu de parede para que todo aquele aço entrasse no corpo da minha mulher. Clarice deu um último suspiro, e com olhos arregalados de tanto pavor, tombou sua cabeça sobre meus braços. Que coisa mais triste doutor delegado. Né?

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Devaneio primaveril
(por Elano Ribeiro)

Na noite passada aconteceu uma grande festa no meu jardim imaginário. Os organizadores estavam com os nervos à flor da pele, preocupados em averiguar cada detalhe, desejando que aquela noite fosse inesquecível. Vindas de diversas regiões, as Orquídeas, anfitriãs da festa desse ano, usavam vestidos das mais variadas cores e estilos, e aguardavam, ansiosamente, a chegada da convidada mais ilustre. Ao notarem a aproximação de uma carruagem dourada, puxada por cavalos alados, todos brancos como algodão, os Cactos, responsáveis pelos fogos de artifício, coloriram o céu que já estava pintado de estrelas. Enfim, chegava a Primavera, despejando lá do alto, milhares de pétalas de Rosas brancas, amarelas, vermelhas... Trazia consigo um valioso presente, uma chuva suave, da mais pura e cristalina água. Margaridas, Ipês, Trevos e todos os demais convidados reverenciavam a rainha que desembarcava de forma grandiosa, porém humilde, saudando a todos com aceno e olhar maternal. Copos de leite, responsáveis pela escolta da rainha, a acompanharam até o centro do jardim, acomodando-a numa confortável almofada feita de Painas. Formigas, devidamente trajadas, serviam água da chuva em taças de cristal. Todos ergueram um brinde em homenagem a mais uma festa da Primavera. Num enorme palco formado por Cogumelos gigantes, uma orquestra de Morangos silvestres, regida por um impecável Jasmim, tocava orgulhosa a Nona Sinfonia de Bethovem. O baile adentrou a madrugada, com os pares apaixonados dançando sem parar, sendo observados carinhosamente pela grande rainha Primavera. Num canto mais isolado da festa, quatro jovens Lírios do campo, todos de terno e gravata, usando enormes franjas no cabelo, tocavam Sergeant Pepper's Lonely Heart's Club Band, levando algumas Hortênsias e Violetas adolescentes à loucura. Fui acordado de meu devaneio primaveril, pelo forte estrondo de um trovão. Custei pra perceber que havia sido “expulso” daquela festa magnífica. Levantei-me, fui até a janela do quarto e fiquei alguns minutos observando a chuva que caía, sentindo uma enorme paz interior. Não resisti e fui ao encontro dela. Antes, porém, peguei uma taça que não era de cristal, e debaixo da chuva, deixei que ela se enchesse daquela água, que também não era tão pura e cristalina. Fiz um brinde à rainha Primavera, pedindo que seu reinado seja de muita paz, amor, flores e poesia.

sábado, 15 de setembro de 2007

Recebi um e-mail com esse texto que está abaixo. Não sei se é mesmo de autoria do Herbet Viana, mas de qualquer maneira, seja ele, ou não, o autor, o texto é bem interessante

Vaidade
(Herbert Viana)

Cirurgia de lipoaspiração? Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipo-as e muito mais piração? Uma coisa é saúde outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu.Hoje, Deus é a auto imagem. Religião, é dieta. Fé, só na estética. Ritual é malhação. Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem.Gordura é pecado mortal.Ruga é contravenção.Roubar pode, envelhecer, não.Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação.Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não Pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem. Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa.Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa. Não importa o outro, o coletivo. Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política.Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar correr, viver muito, ter uma aparência legal mas... Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.
"Cuide bem do seu amor, seja ele quem for "
Herbert Vianna

domingo, 9 de setembro de 2007

Número um quatro três
(por Elano Ribeiro)

... deixa de ser machista, Paulo Renato. Não adianta insistir, Maria Rita, isso não é coisa de homem e eu não vou fazer. Pois fique sabendo o senhor, que uma revista super conceituada, que agora eu não me lembro o nome, publicou o resultado de uma pesquisa sobre sexo, e oitenta e cinco por cento dos homens entrevistados disseram já ter feito o nº 143, e a grande maioria gostou muito. Ah, qual é, Maria Rita!? A revista é tão conceituada que você nem se lembra o nome dela. Um pequeno lapso de memória, Paulo Renato, só isso. Tá bom vai, aposto que eles não entrevistaram nem vinte homens sequer. Poxa, Paulo Renato, vamos pelo menos experimentar. Se você não gostar a gente pára. Eu já disse que não, Maria Rita. Isso não é justo. Quando eu te dei de presente o livro “203 maneiras de enlouquecer um homem na cama” você disse que nós iríamos praticar todas as etapas do livro. Acontece, Maria Rita, que nas outras cento e quarenta e duas eu não precisei passar por nenhum constrangimento. Que constrangimento, Paulo Renato? É nossa intimidade, e além do mais ninguém vai ficar sabendo. E como é que eu vou encarar meus amigos lá do futebol depois disso? O que é que seus amigos têm com isso, Paulo Renato? Você não vai contar nada pra eles. É, mas e se algum deles olhar pra mim e desconfiar do que aconteceu? Sei lá, vai que meu jeito de andar fica diferente. Pára de falar besteira homem de Deus. Isso, Maria Rita, Deus, Ele não fez o homem pra esse tipo de coisa. É, seu engraçadinho, e nem as mulheres foram feitas pra isso também, no entanto, vocês homens adoram a idéia. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, não é, Paulo Renato? Maria Rita, se coloca na minha posição. Eu já me coloquei meu amor, e é por isso que eu até já providenciei um gel maravilhoso, indicação de uma amiga. Você contou pra sua amiga essa sua idéia maluca, Maria Rita? Não, meu amor, eu disse que quem vai usar o creme sou eu. Ah, menos mal. Além do mais, quando a gente chegar ao nº 149 eu é que vou precisar desse cremezinho, não é mesmo, Paulo Renato? Hummm, o nº 149 vai ser um espetáculo, Maria Rita. É, vai ser um espetáculo se você antes fizer o nº 143, porque se a gente pular esse, meu amor, pode esquecer as outras tantas maneiras que vão restar pra gente fechar esse “best seller” do sexo. Vai fazer chantagem agora, mulher? No amor vale tudo meu bem. Tá bom, Maria Rita, nós vamos fazer o nº 143, mas oh, é só porque eu não quero ficar sem o nº 149, só por isso hein! Paulo Renato, meu amor, eu sabia que você não iria me decepcionar. Vou lá buscar o tal creme... Maria Rita, faz esse negócio bem devagar hein! Pode deixar, meu amor, relaxa e aproveita, ou melhor, goza, como costuma dizer nossa ministra... Ai, Maria Rita. Ai, Maria Rita. Ui, Maria Rita. Tá ruim, meu amor? Pra dizer a verdade, até que tá gostoso. Tá vendo, Paulo Renato, eu não falei que ia ser bom, meu amor. Nossa, Maria Rita, isso é bom demais, parece que eu vou decolar. Paulo Renato... Não pára, Maria Rita. Paulo Renato... Mais rápido, Maria Rita. Paulo Renato... Eu não tô me agüentando, Maria Rita. Pedro Renato, já chega, assim já é demais. Maria Rita, pode me dizer por que você foi parar justo na hora “h”? Porque eu tô achando que você tá gostando demais, Paulo Renato. Enlouqueceu, Maria Rita? Você queria porque queria fazer esse negócio, agora que eu topei e tava gostando você quer parar mulher. O problema, Paulo Renato, é que você não tá só gostando, você tá delirando de prazer, tá adorando. Não é mesmo, Paulo Renato? Ah, Maria Rita, o que é que você quer dizer com isso mulher? Olha aí, olha aí a tua voz? Que tem minha voz? Você tá afinando a voz, homem de Deus. O que? Paulo Renato, Paulo Renato, sua família não merece esse desgosto.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Um pouco mais de tempo, elas merecem e eles agradecem
(crônica de Elano Ribeiro, publicada na revista Cronicas Cariocas - www.cronicascariocas.com)
Está previsto para ainda este ano a votação no Congresso do Projeto de Lei da Senadora Patrícia Saboya, que amplia o tempo da licença-maternidade, que hoje é de quatro meses, para seis meses. Parabéns à Senadora pela iniciativa, e parabéns também a algumas empresas do setor privado e a alguns estados e municípios que se anteciparam ao Projeto de Lei e já estenderam o prazo da licença-maternidade. O assunto é de extrema importância, principalmente para as mulheres que amamentam os filhos exclusivamente com o leite materno. Tomara que a votação ocorra o quanto antes, e o projeto seja aprovado.

Vivemos num mundo cada vez mais competitivo, com os ponteiros do relógio parecendo andar mais depressa, e os pais, na sua grande maioria, têm que deixar seus filhos em creches, escolas ou com babás durante todo o dia para poderem trabalhar e garantir o sustento da família. Muito justo então, que pelo menos nos primeiros meses de vida, mães e filhos possam ficar juntos em tempo integral por um período mais prolongado.

A expectativa do retorno ao trabalho antes dos seis meses de vida do bebê – tempo mínimo recomendado pelos pediatras para o aleitamento materno – é angustiante para a mãe. Posso afirmar isso porque nesse exato momento vivencio essa situação. Minha esposa Laura, que está amamentando nosso filho João Pedro unicamente com o seu leite, preocupa-se diariamente com o seu retorno ao trabalho. A inquietação dela se dá pelo fato de não querer interromper a amamentação ou ter de acrescentar outros alimentos a dieta do nosso filho antes do tempo ideal. Fato que se torna impossível se não houver um aumento no tempo da licença-maternidade.

No que diz respeito a esse direito das mamães, as brasileiras – mesmo com o período atual, que é de 120 dias – são privilegiadas em relação às mulheres de outros países, tanto da América do Sul, quanto da Europa. Na Colômbia e na Argentina o período da licença é de noventa dias e na Alemanha é de 98 dias. Já não podemos dizer o mesmo quando a comparação é feita com as mamães australianas: lá a licença-maternidade é de 365 dias.

Bem, está nas mãos das autoridades desse país decidir o tempo que as mamães devem ficar em casa por ocasião do nascimento de seus filhos. Mas há uma coisa importantíssima que nós pais temos a obrigação de fazer, e somente nós podemos fazer: precisamos dedicar aos filhos todo o nosso tempo disponível, por menor que ele seja e por mais cansados que estejamos depois de um dia inteiro de trabalho. Eles, os filhos, necessitam do nosso abraço, do nosso apoio e até mesmo de nossas broncas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O corredor suicida
(por Elano Ribeiro)


O velório e o enterro transcorreram de forma serena, apesar da perplexidade e incompreensão por parte dos familiares e amigos com relação ao ocorrido. O defunto em questão era o Coronel da Reserva, senhor Alcides Coimbra. O sobrenome do Coronel era sinônimo de respeito dentro do exército, afinal, desde seu bisavô, que a família mantém a tradição de ter sempre um membro no quadro de oficiais do exército brasileiro, servindo à pátria de maneira honrosa. Alcides também era reverenciado na caserna por ser um exímio atleta, fato que lhe rendeu um codinome: “O corredor”. Assim como seus antepassados que usaram fardas, ele sempre foi um homem de “mãos pesadas” com seus subordinados. O nome do Coronel também era associado a outras “façanhas” não tão nobres dentro dos quartéis do Rio de Janeiro. Comenta-se, que “O corredor” era temido por todos os presos políticos na época da ditadura. Pobre daquele que caísse nos porões escuros e sujos dos quartéis cariocas. Mas, tudo isso nunca foi provado, ficou só no campo da especulação.

Alcides nasceu e morou sempre no mesmo endereço, um casarão no bairro da Urca. Imóvel pomposo adquirido por seu bisavô. Na frente existia um belo jardim com as mais variadas qualidades de plantas, rosas e flores. Duas palmeiras imperiais marcavam o início da escadaria que levava à imensa varanda. Outra especulação, essa dos vizinhos mais próximos, era de que nos fundos do quintal, contrastando com a beleza do jardim, havia um tronco onde muitos negros sentiram a fúria do bisavô do Coronel Alcides. Foi nesse mesmo casarão, que ultimamente já apresentava alguns sinais de deterioração e o jardim já não era tão belo, que “O corredor” viu seus dois filhos crescerem. Um seria o orgulho do Coronel, o outro, o mais jovem, seria considerado a desonra da família, não tendo sido expulso de casa por causa da intervenção de sua mãe. Tudo isso porque, enquanto o filho mais velho seguiu as tradições militares dos Coimbra, já sendo um Primeiro Tenente de futuro promissor no nosso exército, o rapaz mais jovem seguiu o mundo das artes, tornou-se artista plástico, e dos bons. Mas o velho Coronel nunca conseguiu ver qualidade nenhuma em qualquer artista que fosse. Por diversas vezes excomungou o filho mais jovem dizendo que ele era desse jeito porque a esposa tinha ficado grávida sem querer. Dizia ainda: “O Brasil não necessita de artistas que só sabem segurar pincéis e espátulas, e, sim, de homens fortes e determinados que segurem nossos fuzis e baionetas e estejam sempre prontos para defender nosso solo sagrado”. Pra piorar as coisas, o Coronel via seu filho mais velho poucas vezes durante o ano. É que o rapaz sempre optou por servir ao exército em lugares muito distantes do Rio, aparecendo por aqui apenas no Natal, no dia das mães ou dos pais e, numa outra data qualquer, que, ultimamente, vinha sendo no mês de julho. Quando questionado pelo pai sobre o porquê de servir sempre tão distante do Rio e Janeiro, o filho mais velho respondia: “Pai, eu preciso estar lá pros lados da Amazônia, nossa fronteira é enorme e ainda existem muitas terras a serem desbravadas pelo exercito. Além disso, os recrutas de lá são rebeldes, não estão acostumados com um comando sério, eles precisam das mãos fortes e pesadas dos Coimbra”. Pronto, estava o pai ainda mais orgulhoso de seu filho Tenente e satisfeitíssimo com a resposta.

E foi exatamente num desses dias de julho, mais precisamente num domingo, que se deu a tragédia. Diariamente, o Coronel Alcides saía pra correr. Sempre fez questão de manter a forma física e a saúde em dia, mesmo depois de ter saído da caserna. Normalmente, ia de carro até Copacabana e fazia seu “cooper” lá no calçadão, mas naquele domingo resolveu ficar aqui mesmo na Urca. Havia lido no jornal do dia anterior, que Copacabana seria tomada por uma multidão de gays, lésbicas e simpatizantes, para mais uma edição da Parada Gay. Esbravejou e praguejou, junto ao filho mais velho: “Meu filho, essas aberrações mereciam os porões do exército. A cidade, o país e o mundo estão infestados desses seres repugnantes. E o pior, tem gente que acha tudo normal”. O filho Tenente pigarreou e disse num tom não muito convincente: “Concordo papai”. Lá ia o Coronel, em sua corrida cadenciada, corpo esguio e olhar sempre adiante, quando algo lhe chamou a atenção enquanto passava em frente a um pequeno bar do outro lado da calçada. Um grupo de jovens, desses a quem ele queria apresentar os temidos porões, fazia uma espécie de concentração para a parada que marca o Dia do Orgulho Gay. “O Corredor” ficou revoltado: “Porque os bastardos não estão lá em Copacabana?” Pra piorar, ele não escapou dos fius fius de alguns dos alegres jovens, todos vestindo trajes muito chamativos e coloridos, com plumas e outros adereços mais. De súbito, do meio daqueles intrépidos GLSs, partiu um olhar que encontrou em cheio o olhar do Coronel, que incrédulo deu um grito que ecoou por boa parte da Urca, um grito de raiva, de fúria. E como se estivesse num campo de batalha, atravessou a rua inesperadamente, parecendo avançar sobre as frentes inimigas. Foi jogado ao alto por um fusca que passava e não teve tempo de parar, aquele corpo alto e forte caiu sobre o asfalto. Em meio à multidão de curiosos que o cercava, “O Corredor” ainda teve tempo de encarar o filho Tenente – graciosamente travestido de Drag Queen – e, mesmo sem forças pra dizer mais uma palavra que fosse, deixou claro, através de sua expressão de dor, que amaldiçoava o filho para todo o sempre.

Nunca ninguém soube da verdade. O filho mais velho tratou de sair rapidamente do local onde o pai falecera, deixando no rosto da vítima um brilho de purpurina, devido a um último afago. Durante o sepultamento, enquanto o corpo do Coronel Alcides era devidamente baixado à sepultura da família, os filhos – que se mantiveram afastados durante todo o velório, e assim continuavam – tinham comportamentos bem diferentes. O mais velho chorava e a todo instante balbuciava que havia perdido sua referência de vida. O mais novo continuava em silêncio, e se olhássemos bem para ele, era possível perceber uma covinha na lateral dos lábios, indício de um discreto sorriso.

Naquela mesma manhã do sepultamento, um jornal popular e sensacionalista aqui do Rio de Janeiro noticiou em uma de suas páginas, com uma pequena nota: “O exercito brasileiro chora a morte de um de seus mais ilustres representantes, o Coronel Alcides Coímbra, também conhecido pelos colegas de farda como “O Corredor”. Ao que tudo indica, o Coronel cometeu suicídio, atirando-se na frente de um fusca que passava em alta velocidade. Nos quartéis cariocas, os recrutas já tratam o falecido pela alcunha de “O Corredor Suicida”.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O amor na sua forma poética e cotidiana
(texto de Elano Ribeiro, publicado na revista "Cronicas Cariocas")

Como em toda história de amor, um dia eles se conheceram. A convivência diária os aproximou. Os dois se apaixonaram. Os dois deixaram de lado as diferenças de suas crenças. Os dois foram viver na mesma casa, e levaram consigo uma bagagem com muitos sonhos. Os dois sonhavam e se amavam. Os dois se fizeram três. Os dois dançavam na sala logo após o café da manhã ao som de Miles Davis, se abraçavam e se emocionavam. Os dois brincavam como se crianças fossem. Os dois dividiram tantos problemas que já não sabiam dizer quais foram os mais difíceis de superar. Os dois também já tiveram e têm suas muitas alegrias. Os dois têm dívidas, mas também têm a música que ele toca com seu violão. Os dois são tão cúmplices que isso fica claro até para um estranho. Os dois querem uma vida melhor, com direito a prazeres que vão além do sexo. Os dois ainda têm o sexo, mas até ele já ficou restrito a poucos sons e limitado a certos horários. Os dois ainda sonham muitos sonhos, mas já não compartilham dos mesmos sonhos.

Ele passou esses longos anos de união deixando claro para a esposa que a ama acima de qualquer suspeita, porém sente desejos por outras mulheres. Ela parecia aceitar tudo numa boa, afinal tem a cabeça aberta, é bonita e segura de si. Ele nunca a traiu, a não ser por uns papos na internet, mas isso ainda não ficou claro para ele se é traição ou não. Ela é mais velha, tem os pés no chão, mas não quer dizer que não seja uma sonhadora. Ele tem alma de adolescente, apesar de não ser, e é um sonhador nato. Ela é avessa ao mundo virtual, ou pelo menos passa essa impressão. Ele tem um perfil maneiro no Orkut e seu quadro de amigos virtuais é composto, em sua maioria, por lindas mulheres. Ela começa a rever seus conceitos de mulher liberal. Ele precisa mais do que nunca que a mulher reveja esses conceitos e se torne ainda mais liberal, mas pelo andar da carruagem isso é um tanto difícil. Ela começou a achar que ele está perdendo o interesse por ela, no seu rosto já há as marcas do tempo. Ele nunca disse não para uma noite de sexo com ela, mas não sei se o corpo que ele vislumbra é sempre o dela. Ela o enxerga como um super-homem. Ele tem certeza que é um super-homem. Ela parece viver presa no seu pequeno mundo de dona de casa. Ele viaja com facilidade através de sua poesia. Ela quer ser apenas a mulher de seu marido fiel. Ele quer andar sem destino com a mochila nas costas. Ela acha que a separação pode ser a melhor saída para se evitar mais sofrimentos. Ele quer continuar casado. Ela chora. Ele chora. Os dois se amam.

O texto poderia ser uma ficção, mas é realidade de um casamento. E quantos outros casais não vivem a mesma realidade? Eu participo desse teatro da vida real, compartilhando com ele suas dores, dúvidas e angústias. Mas também vislumbro suas esperanças, mesmo que ele não fale delas, ou talvez, nem mesmo saiba que elas ainda vivem em seu coração de poeta.