quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Carbamazepina
(por Elano Ribeiro. Texto publicado na revista Crônicas Cariocas)

Há mais ou menos nove anos, numa tarde de janeiro, senti uma forte pontada na cabeça, como se um objeto pontiagudo estivesse penetrando meu crânio. Fiquei tonto. Muito tonto. Concluí que alguma coisa não estava normal dentro da minha cabeça – já nem um pouco normal – e que, portanto, deveria procurar um médico imediatamente.

E foi o que eu fiz, naquele mesmo dia. Potencializei meu pessimismo e procurei um neurologista, já querendo perguntar a ele quanto tempo eu ainda tinha de vida. Sério, não é exagero. Fui para o consultório com a quase certeza de ter um tumor no cérebro.

Felizmente, após algumas perguntas e respostas, e posteriormente, um EEG – sigla de “Eletro Encefalograma Digital” –, ficou diagnosticado que eu tinha apenas uma “Disritmia”. Algo comum, bem corriqueiro, que quase todo mundo tem nos dias de hoje – palavras do neurocirurgião que me atendeu – e que seria meu parceiro de consultas médicas bimestrais ao longo de muitos anos pela frente.

Ele (o médico) era um sujeito bem mais alto do que eu, gordo, cabelos grisalhos estilo “garotos de Liverpool”, flamenguista que adorava falar do Vasco da Gama, dono de um currículo invejável, colecionador de carros modernos e velhos, e um grande bebedor de cerveja – segundo ele mesmo me disse uma vez, durante uma de nossas conversas-consultas bimestrais.

Ah, a cerveja! Como eu gostava de sentir o gosto dessa bebida maravilhosa. Quanto mais amarga, melhor! E logo no nosso primeiro encontro, o neurocirurgião fã dos Beatles, foi logo me avisando que eu não poderia mais tomar café, Coca-Cola e cerveja, enquanto estivesse fazendo uso dos medicamentos por ele prescritos.

E como eu nunca fui de contrariar ordens médicas, segui a risca as recomendações do doutor Liverpool. Por quase nove anos, ingeri uma dose diária de Carbamazepina – era esse o nome do remédio que eu utilizava –, feliz por nunca mais ter sentido aquela tal pontada na cabeça.
O tempo foi passando e eu ia me sentindo cada vez melhor, mesmo ouvindo a sentença médica de que eu ainda tinha “um pontinho de disritmia”. Então, aos poucos, fui me achando no direito de voltar a consumir um pouco de cafeína, e num ato de rebeldia, não demorou muito para que eu me rendesse aos prazeres do “capitalismo engarrafado” – aqui se lê Coca-Cola.

Porém, eu nunca mais havia colocado uma gota de álcool na boca. Minhas “estripulias-falso-etílicas” eram regadas à cerveja sem álcool. Motivo de chacota entre os amigos apreciadores do gosto divino da cerveja.

Até que, semanas atrás, resolvi por fim a minha abstinência etílica. Tudo por conta de uma cerveja preta. Olhei para a prateleira do mercado e lá estava ela, me observando, me conquistando com seu jeito envolvente e sensual, disfarçado nas suas formas arredondadas. Tenho certeza que meus olhos brilharam, e ela, falando bem baixinho, quase que sussurrando aos meus ouvidos, me disse coisas que eu nem pude acreditar. Enfim, fiquei com água na boca, cheio de sede e vontade de sentir e sorver novamente o seu precioso líquido. Ela me fez perder a cabeça, e num ato condenado por alguns, porém aplaudido de pé por muitos outros (quem serão os loucos da história?), ao chegar em casa, tomei uma decisão: peguei todas as cartelas da minha ex- amiga Carbamazepina e guardei-as bem lá no fundo da gaveta. Desde então, nunca mais voltei a vê-las. E, se interessa a alguém, estou me sentindo muito bem.

Quanto a minha conquistadora lá das prateleiras do supermercado, a mesma que me devolveu ao “mundo dos nem sempre sóbrios”, levei-a para casa, conversei com ela por uns dois dias, sempre que abria a porta da geladeira, e no fim de uma tarde quente de domingo, cheio de cuidados e carinhos, coloquei-a sobre a mesa, segurei seu corpo frio, rígido e molhado, tirei seu lacre, ouvi aquele delicioso barulhinho de prazer emanar de sua “boca”, observei extasiado seu líquido derramar para dentro do meu copo, e tomado por um prazer descomunal, provei do seu sabor em um só gole.

Como dizem aqueles ilusionistas às suas platéias, sempre que vão fazer algum número muito perigoso, eu também vos digo: não façam como eu. Antes de deixar de tomar seus medicamentos, procure seu médico. Mas caso ele não o libere, vá a um mercado qualquer, olhe para a prateleira certa, deixe-se conquistar por uma nova (ou antiga) paixão e guarde sua cartela de remédios bem lá no fundo da última gaveta do armário. Às vezes, uma pequena dose de rebeldia desce bem.

2 comentários:

Mateus Berteges disse...

Olá, colega blogueiro!

Venho aqui para lhe convidar para deixar sua contribuição no novo projeto do "Certeza da Incerteza".

O nome do projeto é "Buscando o Fim", onde todos poderão participar deixando nos comentários a sua idéia de

como continuar o texto.

A idéia principal é não ter um fim ao texto e, sempre que quiser, poderá conferir o andar da história e

sugerir uma nova continuação.

Caso goste da idéia e queira compartilhar, não perca tempo!

Clique no link: http://www.buscandoofim.vai.la e deixe seu comentário.

Obs.: Com o grande numero de virus que circulam na internet e para garantir sua segurança, caso não queira

clicar no link enviado, por favor, busque "certeza da incerteza" no google e entre no meu blog. O texto tem

o titulo de Buscando o Fim e foi postado em Dezembro de 2008.

Agradeço desde já sua contribuição.
Aproveito para lhe desejar também um ótimo Natal e um Ano Novo cheio de sucessos.

Forte Abraço,
Mateus Berteges
Certeza da Incerteza

Miguel Barroso disse...

Caro Elano,

faz muito que não ando pela net. Temos muito para pôr em dia.
Agora regressei, e com nova casa.

Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO