quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Carta a um desconhecido
(publicado também na revista Crônicas Cariocas)
Tenho pensado seriamente em ir a uma agência dos Correios, pegar um daqueles enormes livros de endereço, escolher a página de uma cidade bem distante, fechar os olhos e correr o dedo pela folha, parando repentinamente em algum nome. Feito isto, tomarei nota dos “dados postais” da pessoa e voltarei para casa, para então, começar a escrever uma carta a alguém desconhecido.

Escrever para alguém que você desconhece por completo, um verdadeiro estranho, tem lá suas vantagens. Por exemplo: essa pessoa pode servir como uma espécie de psicólogo, afinal pode-se revelar a ela as coisas mais absurdas, os desejos mais proibidos, as culpas, as frustrações, e por aí vai. Porém, meu objetivo será outro, o de tão somente me corresponder com alguém que jamais pensou em receber uma carta de um completo desconhecido.

Ainda mais em tempos de quase total extinção das correspondências tradicionais. Aposto que, se ao invés de uma carta, eu fosse até meu computador e digitasse aleatoriamente um e-mail qualquer, o destinatário não o abriria, com receio de ser um vírus que iria por todo o seu HD em risco. Então, excluindo-se a total possibilidade de ser uma carta bomba, certamente quem a receber, terá muita curiosidade de abri-la e ler seu conteúdo até a última linha.

Ficarei na expectativa de saber se minha correspondência irá cair nas mãos de alguém jovem ou idoso, alegre ou baixo-astral, pessimista ou otimista. Será essa pessoa um administrador ou um artista? Será alguém de espírito criativo que irá ler minha carta e se dar ao trabalho de responder? Ou será uma pessoa fechada para tudo que não estiver programado na sua rotina cotidiana, e por conta disso, pensará que sou um louco e desocupado que tem tempo de sobra para perder com bobagens e futilidades, como tentar fazer contato com pessoas estranhas?

Seja lá como for, por um determinado período, será como se eu tivesse voltado no tempo. Tempo em que se esperava o carteiro ansiosamente, todos os dias, na esperança de receber notícias de um amigo, amor ou parente distante.

Quem sabe, a pessoa que receber minha carta comentará com outras a respeito do acontecido e uma dessas dirá: “Ah, eu já ouvi falar da cidade desse cara e tenho conhecidos lá”. Ou então: “Que coincidência, tenho parentes que vivem no lugar de onde veio essa carta”. Afinal, não raramente, esse nosso mundo tão grande, parece ser pequeno demais.

2 comentários:

Fabrício Mohaupt - Tito disse...

Boa tarde!
Vá ao Hiperatividade e busque o selo que dei ao teu blog.
As regras e o que deve ser feito estão explicadas lá, ok?
Fabrício
http://titomohaupt.blogspot.com/

Catarina Cunha disse...

Elano,
Adoraria ser essa desconhecida digna de uma carta sua! Bela crônica.